Crónicas de Pão-De-Ló


- consumismo -
Novembro 14, 2008, 12:44 am
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Sou consumista?

Pois sou,

Mas ao menos é de ideias!

(o que em certos dias sai mais barato)

.



Outubro 24, 2008, 4:25 pm
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Todas as palavras são como tu.



Remédio
Outubro 24, 2008, 4:24 pm
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Chorava balançando-me na janela. Todos temos dias menos bons. E ele dizia (chora, que faz bem à alma). Mas não fazia - só ao corpo: à efemeridade febril, à vociferação do momento, aoponto finais entediados nos fétidos cantos das frases. 

Ele ria. E chorava sempre. Dizia (rir é a cura para todos os males). Mas não era – pelo menos não o riso dele.

Um dia acaba-se o humor que nos motiva a produzir lágrimas. 

Ainda tenho uma data de perguntas a fazer. Mas acabaram-se as respostas, não foi?



Beathing in, Breathing out
Outubro 15, 2008, 6:46 am
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1. Alongo o tronco, elevando os braços bem para o alto e solto-os devagar;

2. Giro lentamente a cabeça para um lado e para o outro;

3. Giro os ombros: 3 vezes para a frente e 3 vezes para trás;

4. Solto, com suavidade, os braços e depois as pernas, relaxando-os;

5. Giro o quadril várias vezes para um lado e depois para o outro;

6. Giro a língua passando-a sobre os dentes e a gengiva;

7. Relaxo a laringe, emitindo o som de “Hummm” e realizando ummovimento de mastigação, suavemente.

Respiro fundo. Repito três vezes.

Tomo dois comprimidos.

Bebo chá de camomila.

Oiço música relaxante.

Acendo velinhas.

 

(Não, ainda estou nervosa.)



o seu nome não era maria
Setembro 28, 2008, 10:31 pm
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“Anything that comes from the soul is poetry”

A sua voz aveludada, com uma rouquidão quase imperceptível, era o amor perfeito daquela noite. O ar do quarto estava tépido e húmido, graças ao bafo quente do ar condicionado, e a janela estava forrada com uma fina camada de humidade que nos impedia de ver a chuva lá fora. 

Eu estava deitado na cama, como sempre, a rever o artigo a entregar no dia seguinte. “A crise financeira do sector imobiliário”. Que tema fascinante – pensei com sarcasmo. Já se iam os dias em que acreditava que ia salvar o mundo. 

Quando as palavras, já tão familiares, se tornavam uma mancha desfocada, levantava os olhos e observava o rosto pálido de Maria no reflexo do espelho. Penteava os longos cabelos negros, madeixa por madeixa, com o cuidado de uma mãe que embala o seu filho. Que comparação bizarra. Que rosto bizarro, o rosto de Maria. Emoldurado por aqueles cabelos negros, em contraste com a sua pele translúcida, poderse-ia dizer que estava morta. Mesmo os movimentos do seu corpo esguio, enquanto separava as madeixas de cabelo, tinham algo de pesado e denso, contrastando com o seu aspecto frágil.

O nosso quarto – ou o quarto dela, onde havia para sempre de me sentir um intruso – estava quase vazio, e a meia luz do candeeiro do teto esforçava-se por dar um tom bucólico à cena. Mas era impossível, ao olhar para o seu rosto, ao ouvir a sua voz indefinida no espaço, não sentir um arrepio na espinha. E como eu adorava essa nota inesperada nela, essa peça a mais no puzzle.

Mesmo as frases mais comuns que saíam da sua pequena boca – que deslizavam coma sua voz, pareciam-me a mim as mais belas palavras do mundo.

“Anything that comes from the soul is poetry”

Maria pendia a cabeça para o lado, à janela, murmurando uma música qualquer. Quando quisesse, viria para a cama. Suave, como se não pousasse os pés no chão, como fazia todas as noites. O seu perfume de manga beijaria os lençois e o meu nariz. Darme-ia um beijo leve na face, pedindo-me com os olhos para apagar a luz.

“…poetry.”

Um estrondo acordou-me. Mas antes que pudesse olhar, um vento frio empurrou-me e fez voar as folhas de cima da cama que rodopiaram no ar ruidosamente.

As portas da janela abertas.

O ruído dos carros na estrada.

O pequeno chinelo cor-de-rosa de Maria, caído no chão.

Na janela, algo estava escrito. Não me lembro do momento em que me levantei, como me arrastei até ao parapeito. 

“Nothing lasts forever”

Nunca quis salvar o mundo. Queria só fugir da sua violência.



Rubrica Culinária
Setembro 20, 2008, 1:49 pm
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      Rubrica culinária: receita para uma vida banal

Ingredientes:
1 vida
1 emprego enfadonho
1 chefe intragável
1 dl de salário miserável
Cansaço em pó
Família a gosto
Amigos a gosto
½ litro de jantares de confraternização
Música, cinema, livros e desporto a gosto
1 playstation
Ervas aromáticas de cariz estupefaciente 

Preparação:
Corte a sua vida em rodelas finas e coloque-as numa panela, juntamente com o emprego, cortado em gomos relativamente grandes. Deite um fio de salário miserável, tape a panela e coloque a refogar em lume brando. Quando o preparado começar a fumegar – o cheiro a marasmo deverá, por esta altura, fazer-se sentir – adicione o chefe intragável, de preferência picado, e mexa com uma colher de pau.

(Nota: há quem aprecie juntar colegas de trabalho indescritivelmente surreais a este prato. Deixamos essa eventual opção ao critério do «gourmet», ressalvando, no entanto, que tal escolha poderá provocar o intensificar de um paladar já de si bastante azedo ao refogado)

Concluída a primeira fase, terá erguido os pilares essenciais desta refeição: a pseudo-maturidade que advém da responsabilidade do emprego, a angústia do salário que não estica até ao fim do mês, as prioridades completamente invertidas no ritmo de vida e a sensação de completo vazio quando confrontado com as expectativas alimentadas na fase mais juvenil. O principal está feito.

A partir daqui, a confecção do prato terá, em grande parte, mais a ver com o estado de espírito de quem o cozinha e com o âmbito em que a refeição é digerida. Partindo do pressuposto de que a mesma será consumida numa base diária – bem ao jeito ‘McDonalds Espiritual’ – , sugerimos que junte ao refogado os essenciais «pós de cansaço».

Ao fazê-lo, convém retirar a panela do lume e deixar o refogado acalmar, sempre tapado. Mexa devagar, para impedir que o cansaço se acumule no fundo, o que pode suscitar a eventual tendência suicida do cozinheiro.

Quando o cansaço em pó já estiver perfeitamente integrado com os restantes ingredientes – formando um todo bastante compacto – poucas opções lhe restam a não ser refugiar-se nos ingredientes que o ajudam a manter alguma sanidade no prato: família e amigos a gosto. Se puder juntá-los a ½ litro de jantares de confraternização, verá que consegue ocultar ligeiramente a tendência azeda do restante cozinhado.

O prato respirará de outra forma, transmitindo-lhe um paladar mais leve e, acima de tudo, de digestão muito mais fácil. Consoante o ambiente em que esteja, pode acompanhar o repasto com uma de várias sugestões: música, cinema, livros, Playstation e desporto. Obviamente que algumas destas opções são passíveis de degustar em simultâneo. Por isso, mais uma vez, e realçando o facto de este ser um prato de carácter bastante intimista, a decisão ficará ao critério de quem cozinha.

Por fim, e para que as sensações e angústias provocadas por esta refeição possam parecer (realço o PARECER) bastante mais fáceis de assimilar, sugerimos que antes de servir o cozinhado o tempere com as ervas aromáticas de cariz estupefaciente. Depois de fazê-lo, sentir-se-á com capacidade suficiente para comer várias doses de seguida, como se de simples bombons se tratassem.

Com a particularidade de abrirem o apetite, tais especiarias ainda têm o condão de elevá-lo a um patamar de alheamento praticamente «zen», motivo pelo qual tudo passa a ser consumido com um sorriso nos lábios. O sono, esse, torna-se igualmente mais confortável e descansado, permitindo uma digestão perfeita de tudo o que engoliu. O que assume carácter de particular importância, sobretudo se levar em linha de conta que no dia seguinte terá, seguramente, de levar com dose idêntica.

Bom apetite!

in esquizofrenias de bolso



Podia ser hoje
Setembro 15, 2008, 1:53 pm
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“VERSOS FEITOS AO ENTÃO MINISTRO DA AGRICULTURA – HERMENEGILDO DE SOUSA – FOCANDO AS DIFICULDADES DOS LAVRADORES ALENTEJANOS”

Porque julgamos digna de registo
A nossa exposição, senhor Ministro
Erguemos até vós, humildemente,
Uma toada uníssona e plangente
Em que evitamos o menos deslize
E em que damos razão da nossa crise.

 

Senhor! Em vão esta província inteira
Desmoita, lavra, atalha a sementeira
Suando até à fralda da camisa!
Falta a matéria orgânica precisa
Na terra, que é delgada e sempre fraca!
A matéria em questão, chama-se caca.
Precisamos de merda, senhor Soisa!
E nunca precisamos doutra coisa.
Se os membros desse ilustre Ministério
Querem tomar o nosso caso a sério,
Se é nobre o sentimento que os anima,
mandem cagar-nos toda a gente em cima
Dos maninhos torrões de cada herdade,
E mijem-nos também, por caridade!
O Sr. Doutor Oliveira Salazar
Quando tiver vontade de cagar
Venha até nós! Solícito, calado,
Deite as calças abaixo, com sossego,
Ajeite o cú, bem apontado ao rego,
E… como Presidente do Conselho
Queira espremer-se até ficar vermelho!
A Nação confiou-lhe os seus destinos?…
Então, comprima, aperte os intestinos!
Se lhe escapar um traque, não se importe,
Quem sabe se o cheirá-lo nos dará sorte?
Quantos porão as suas esperanças
Num traque do Ministro das Finanças?…
E quem viver aflito e sem recursos,
já não distingue os traques, dos discursos.

Não precisa falar! Tenho a certeza

Que a nossa maior fonte de riqueza
Desde as grandes herdades às courelas,
Provém da merda que juntamos nelas.
Precisamos de merda, senhor Soiza!
E nunca precisamos doutra coisa.
Adubos de potassa?… Cal?… Azote?…
Tragam-nos merda pura do bispote!
E de todos os penicos portugueses
Durante, pelo menos, uns seis meses,
Sobre o montado, sobre a terra campa,
Continuamente nos despejem trampa!
Terras alentejanas, terras fluas,
Desespero de arados e charruas,
quem as compra, ou arrenda ou quem as herda
Sente a paixão nostálgica da merda.
Precisamos de merda, senhor Soiza!
E nunca precisamos doutra coisa.
Ah!… Merda grossa e fina! Merda boa,
Das inúteis retretes de Lisboa!…
Como é triste saber que todos vós
Andais cagando sem pensarem em nós!
Se querem fomentar a agricultura
Mandem vir muita gente com soltura.
Nós daremos o trigo em larga escala,
Pois até nos faz conta a merda rala.
Venham todas as merdas à vontade,
Não faremos questão de qualidade,
Formas normais ou formas esquisitas!
E, desde o cagalhão às caganitas,
desde a pequena poia à grande bosta,
De tudo o que vier a gente gosta.
Precisamos de merda, senhor Soisa!
E nunca precisamos doutra coisa.
Évora, 13 de Fevereiro de 1934
Pela Junta Corporativa dos Sindicatos Reunidos, no Norte, Centro e Sul do Alentejo,

 

O Presidente
D. Tancredo (O Lavrador)

João Vasconcelos e Sá 

Poeta; um homem ligado ao teatro. No carnaval de 1934, em pleno regime de António Oliveira Salazar, João de Vasconcelos e Sá escreveu este texto para apresentar num jantar, onde estava presente o Ministro da Agricultura, Lovigildo Queimado Franco de Sousa, que não terá gostado do que ouviu. 



Na repartição das finanças (1 dia depois)
Setembro 10, 2008, 1:39 am
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burocracia

Burucracia

bu-ru-cra-cia

burucraciazinha

bururu-ruru-rurucracia

(tira senha. senta. espera. yay! – não afinal não era desta – tira senha. senta. espera. espera. yay! – ah, tem de comprar os formulários. põe-se na fila. espera. yay! – tira-se outra senha. espera. espera. espera. yay! – não lhe tinha dito que é preciso BI? – vai buscar BI. tira outra senha. espera. espera. espera. espera. yay! – Não é o seu BI, é o BI da sua mãe, pai, avós e irmão – vai buscar BI. tira senha. espera. espera. espera. espera. espera. espera. – ok, assine aqui, assine ali, ali de novo, aqui, ali. yay! – agora vá ao sítio da internet que tudo estará bem – casa. computador. internet. sítio. – nada bem. espera. nada bem. espera. nada bem.) E amanhã, adivinhem?

Ás vezes irrita.



Reciclagem
Setembro 5, 2008, 9:03 pm
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Dei-te um bocadinho de mim, debaixo de camadas de açúcar queimado. Ornamentei-me com cerejas em calda e beijos de amêndoa doce. (Reguei-me com licor.) Inflei-me de farinha com fermento.

As tuas papilas gustativas excitaram-se ao toque leve da minha doçura. Sorriste de agrado e prazer com tal sabor de ternura.

Mas o excesso de açúcar caramelizado não era de todo, tolerável para mim mesma. 

Enjoei. Quero ser outra coisa. Posso?



Interruptor
Agosto 30, 2008, 10:22 pm
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Para aqueles dias em que o cérebro parece deslocado dentro do crânio.

Para os outros dias em que o crânio parece excluido pela língua.

E ainda, para os dias em que a língua é vítima de bulling pelos olhos.

Porque há dias, que onde quer que se esteja, está-se excluído:

(Não acendas já a luz.)