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Não tive hipótese se não por este vídeo aqui.
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Esta é daquelas coisas que já me devias ter contado à muito tempo. Porque é muito importante, porque te afectou em todos os degraus diagonais da tua vida. Sim, é um daqueles segredos que se derreteram na gordura das tuas costas e que perfumam de asco, de vez em quando, os teus olhos negros (mas só repara quem vê com atenção). Quando dizias, e quando pensavas – não, eu não tenho nada a esconder – nunca te ocorreu contar-me isto? Não. E não é porque seja algo especialmente perverso, ou vergonhoso. É porque este segredo é a essência da tua identidade. Sem ele, o que serias tu? Ou, colocando-o de outra forma, como serias tu sem ele? Não existirias. Serias apenas mais uma pessoa na multidão. E assim, numa reviravolta inesperada, tu, mesmo sendo mais uma cabeça na multidão, não és como as outras pessoas. Porque és tu, mas és também um mistério. És um buraco negro, e o segredo é o teu fundo.
O que tu pareces não entender, é que essa névoa de mistério, que admitamos, cativa as pessoas em teu redor, é no fundo a mesma névoa que as afasta. Porque escavaste à tua volta trincheiras – avisos – aos mais despistados. Sim, és o teu segredo. Mas os segredos são algo de simbólico, não podem ser tocados, nem cheirados, nem amados. Os segredos são o que são – silêncios. E ninguém adora grades de silêncio.
Agora que sei o teu segredo, depois de tanto suspanse, não posso evitá-lo: estou densamente desiludida. Até as expectativas que criaste, com a tua onda de incertezas, me fizeram acreditar que no fundo, escondias algo de grandioso. Mas não, o teu segredo, é só isto? Mas porque não disseste antes?
(E na compreensão do tamanho mínimo do teu segredo, apercebi-me que também tu és mais pequeno do que aquilo que eu via. Uma brisa náuseabunda acaricia-me. Afinal, és só isto?)
Quantos segredos se escondem num invólcruo como o nosso?
Arquivado em: Events, Pessoas, Posições, Watch | Tags: Beijin, Cina, Jogos Olímpicos, Pequim
Quando, no Ocidente, se fala da China, aborda-se a questão de dois pontos de vista: por um lado, elogia-se a filosofia oriental, o exotismo do seu ambiente cultural, a sua alimentação contrastante. Por outro, critica-se os seus excessos políticos, a radicalização, o desrespeito total pelos direitos humanos.
No Oriente, quando se fala do Ocidente, o diálogo prende-se com dois pontos principais: a vitimização e a necessidade de restabelecer a honra. Desde à muitos anos que os Chineses vivem com o sentimento de injustiça e falta de compreensão do comportamento dos Ocidentais. Por isso, mais do que empreenderem gestos espectaculares (no verdadeiro sentido da palavra), o que os Chineses pretendem mostrar aos Ocidentais é a sua grandiosidade. Daí os seus inúmeros esforços para mostrar uma Beijin imaculada, onde as fábricas fecharam, as tecnologias são de ponta e as ruas seguras. E este esforço extrapolado, que a nós nos parece ridículo pelo exagero, não é assim tão incomum na China, um país com 1,3 biliões de pessoas, 80 línguas diferentes e uma densidade populacional que varia dos 4 aos 140 habitantes por km quadrado.
Na China, todos os anos (para não dizer meses), quarteirões inteiros são destruídos e construídos, cidades inteiras reestruturadas e milhares de pessoas colocadas noutras casas (para terem uma ideia, um livro interessante é o Cana de Pesca para o meu avô, de Gao Xingjian). Por isso não estranhem os gestos hiperbolizados provenientes deste país.
E em vez de criticarem os Jogos Olímpicos na China como uma desgraça por dar credibilidade num país onde 1.770 pessoas são condenadas à morte por ano, onde religiões são proibidas e eliminadas e a maioria da população vive em condições indescritíveis, lembrem-se que a mediatização à volta deste país, no último ano, trouxe a problematização destes casos como há muito não havia, além de gestos sem precedentes como a permissão de ajudas internacionais no pós-terramoto em sìchuān.
A cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos foi de uma grandiosidade que não deve passar despercebida. Dirigida por Zhang Yimou (realizador da Casa dos Punhais Voadores, Herói e a Maldição da Flor Dourada), e com Steven Spielberg como consultor especial, envolveu mais de 15,000 dançarinos, num espectáculo recheado de cor, luz, movimento e tecnologia. Esperemos que a atenção dada aos issues orientais não seja limitada ao período dos jogos olímpicos, e que o ano 2008 seja realmente um ano de sorte. (O 8, bā [lê-se páá], é considerado um número da sorte porque o seu som é parecido com riqueza, por isso a cerimónia começa as 8:08 do dia 08 do mês 8 de 2008. )
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Once upon a time there was a little boy whose head was in the shape and size of an ostrich egg. Inside his head, there where a million and two blue lines all connected to themselves and to his eyes and little silver tongue. He had small hands and crooked feet, so his figure wasn’t very attractive at all. But his spleen eyes, filled with crackling blue sparks, made him impossible not to be looked at. Inside, everything that his eyes caught was absorbed into the blue wires and redirected to his blood, which after this process was orange-flavored. Thanks to this characteristic, the little boy was teased and called sponge-egg. After some years, no one really knew the little boy real name, not even him.
But as you can imagine, sponge-egg hadn’t been born sponge-egg. He was born a perfectly smooth skin baby as all the other humans in the blue planet. At the nursery it was impossible to distinguish him from the other babies: the only difference was a little bracelet with his name. But somehow, little yet-to-be sponge-egg found himself alone very soon. And he looked around, but there was nobody there to touch him. All around him, there were only objects: books, chairs, games. That’s how he became this creature that now wonders our streets. He learn to know the world in a different dimension than normal people do, he learn to breath it, to suck it in and keep all knowledge running in his veins.
Later, when he started talking to humans, he couldn’t really understand them. Better yet: he sees them as he sees books: he finds them wonderful, captivating, magical… he studies them hardly, day and night. Until one day sponge-egg arrives to what he sees as their last page. “The End” he says, there’s nothing left to see here, nothing left to lick. He could start-over and find new meanings, but it’s rare that sponge-egg has that kind of patience.
So, there was once upon a time a little boy called sponge-egg who possessed a library. But there weren’t any books there, they were people. And as the dust grew in the filled shelves, new ones were born every day, to the rhythm of the child’s boredom. Millions of sucked books, to never be read again.
Português
Era uma vez um rapazinho cuja cabeça tinha a forma (e o tamanho) do ovo de uma avestruz. Dentro da sua cabeça, um milhão e dois cabos azuis interligavam-se, e conectavam aos seus olhos e pequena língua prateada. Com pequenas mãos e pés tortos, a sua figura não era muito atractiva. Mas os seus olhos baços, repletos de faíscas azuis crepitantes, faziam com que fosse impossível não olhar para ele. Dentro da sua cabeça, tudo o que os seus olhos capturavam era absorvido pelos fios azuis e redireccionados para o seu sangue, que depois deste processo sabia a laranja. Por tudo isto, o rapaz era gozado por todos e chamado de sponge-egg. E depois de alguns anos, ninguém sabia o verdadeiro nome do rapaz, nem mesmo ele.
Mas como podem imaginar, sponge-egg não nasceu sponge-egg. Nasceu um bebé de pele macia como todos os outros humanos no planeta azul. No berçário, era impossível distingui-lo dos outros bebés: a única diferença era uma pequena pulseira com o seu nome. Mas de alguma forma, a pequena criança foi deixada sozinha muito mais cedo. Ele olhou em volta, mas não havia ninguém por perto. À sua volta, só se avistavam objectos: livros, cadeiras, jogos. E foi assim que ele se tornou a creatura que agora vagueia pelas nossas ruas. Ele aprendeu a conhecer o mundo através de uma dimensão diferente das pessoas notmais, aprendeu a respirar esta dimensão, a sugá-la e a manter todo o conhecimento a correr pelas suas veias.
Mais tarde, quando ele começou a falar com humanos, ele não conseguia percebe-los. Ou melhor, ele vê as pessoas como vê os livros: acha-os fantásticos, cativantes, mágicos… estuda-os arduamente, dia e noite. Até que um dia sponge-bob chega ao que ele vê como a última página humana. “The End – diz ele – não há nada mais para ver aqui, nada mais para lamber.” Ele podia começar de novo e encontrar novos significados, mas é raro que o sponge-bob tenha esse tipo de paciência.
Então, reformulando: Era uma vez um rapazinho chamado sponge-egg que tinha uma biblioteca. Mas aí, não existiam livros, existiam pessoas. E enquanto o pó crescia nas prateleiras já preenchidas, novas prateleiras nasciam todos os dias, ao ritmo do aborrecimento da criança. Milhões de livros sugados, para nunca serem lidos novamente.
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As pessoas esgotam-se. A conversa esgota-se. Os olhares esgotam-se, e até o amor se esgota.
Mas a tua sensibilidade para com as outras pessoas, isso é uma escolha.
Não me importo de ser o saco de pancada, have fun. Como degrau é que não me usas.
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Gosto do acto da criação. Não era sobre isto que queria falar, mas já agora, despejo para aqui este aparte. Gosto (e desculpem o exemplo rebuscado) de quando se instala o Windows, depois de formatar o computador, e tudo parece novo e intocável, com todas as opções originais e apenas um ícone do ambiente de trabalho. E também gosto de começar blogues novos, definir a cor dos links e do banner, o nome e o endereço. E antes, gosto de começar cadernos, de começar em páginas brancas, de desperdiçar folhas para começar sempre de novo. Para criar da tábua rasa.
Mas o que vinha aqui desabafar não parece ter muito a ver com isto. Eu vinha falar-nos (porque eu também me incluo no pacote) de amizades. E de como as pessoas mais complexas se tornam na maioria das vezes nas amizades mais gratificantes.
Não digo por isso que gostem delas logo ao princípio. Nem que gostem delas no fim. Não – as pessoas complicadas têm o condão de nos atrair sempre, mesmo quando nos repelem. É difícil criar laços com as pessoas complicadas, porque dia sim, dia não dizem algo completamente inesperado que nos deixa boquiabertos, chocados, desejosos de os mandar dar uma volta no outro (lado do) mundo. As pessoas complicadas também têm uma tendência para ser más influências, de uma maneira ou de outra. Por vezes são tão más companhias que nos arrastam com elas, por outras tão boas que nos cozem em inveja. Mas com sorte a nossa percentagem de influenciabilidade mantém-nos sãos o suficiente para não chegarmos tropeçar – muito. E o que é delicioso é essa ameaça de sanidade sempre presente, o desafio constante, a linha ténue entre o amar e a vontade de arrancar os cabelos.
Pelo menos para mim, que dizem que sou do oito e cento e noventa, parece-me que o melhor são as pessoas que nos conquistam, aos poucos, em vez das pessoas que são tão despreocupadamente naturais, viventes, bonitas, sorridentes. Bonitinhas. Fofinhas. Irritam-me as pessoas sorridentes extrovertidas e simpáticas round the clock. Se não há pessoas que são felizes sempre, há concerteza quem finja. E isso é irritante – mesmo que seja mais simples conviver com elas e compreendê-las.
Pelo contrário há pessoas que chegam a ser horrendas, extenuantes. Mas no dia seguinte, sem elas, acordo com a boca a saber a pouco. Tenho sono. Cá para mim é da complexidade que se faz a vida. E é ela que torna as coisas bonitas.
Mesmo que cansativas… nunca enjoativas.
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Foi assim: ele corria o risco de ser a minha próxima vítima de identificação. Sim, aquela que eu ia referir em 80% das conversas, e que ia idolatrar como a pessoa-mais-quase-perfeita à face do (meu) planeta. Converámos durante horas. Na minha imaginação, eu deglutia aquele cérebro aos bocadinhos, sorvia todas as palavras, bebia todas as sílabas.
Mas depois algo que não adivinham. Ele caíu. Do meu altar quero dizer. Caíu a pique.
E apesar de ter vários pontos a mencionar, com os quais 99% de vocês iriam concordar, nem sei apontar bem porquê.
Simplesmente, à minha frente, aquele smi-deus intelectual, a paixão platónica de parte do meu cérebro, dissolveu-se à minha frente num amontoado de pregas de carne. É verdade: ele é só um homem. E prontos, admito, não é perfeito.
“Com pedra e com ferro se tornarão visíveis as coisas que antes não se viam”
Da Vinci
Mas era tão bom quando me tinha esquecido disso! O aparte dele, o que me faz querer conhecê-lo melhor, é o mesmo que lhe diz bok.
Bok! – Diz ele – Bok! para ti também.

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