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“Anything that comes from the soul is poetry”
A sua voz aveludada, com uma rouquidão quase imperceptível, era o amor perfeito daquela noite. O ar do quarto estava tépido e húmido, graças ao bafo quente do ar condicionado, e a janela estava forrada com uma fina camada de humidade que nos impedia de ver a chuva lá fora.
Eu estava deitado na cama, como sempre, a rever o artigo a entregar no dia seguinte. “A crise financeira do sector imobiliário”. Que tema fascinante – pensei com sarcasmo. Já se iam os dias em que acreditava que ia salvar o mundo.
Quando as palavras, já tão familiares, se tornavam uma mancha desfocada, levantava os olhos e observava o rosto pálido de Maria no reflexo do espelho. Penteava os longos cabelos negros, madeixa por madeixa, com o cuidado de uma mãe que embala o seu filho. Que comparação bizarra. Que rosto bizarro, o rosto de Maria. Emoldurado por aqueles cabelos negros, em contraste com a sua pele translúcida, poderse-ia dizer que estava morta. Mesmo os movimentos do seu corpo esguio, enquanto separava as madeixas de cabelo, tinham algo de pesado e denso, contrastando com o seu aspecto frágil.
O nosso quarto – ou o quarto dela, onde havia para sempre de me sentir um intruso – estava quase vazio, e a meia luz do candeeiro do teto esforçava-se por dar um tom bucólico à cena. Mas era impossível, ao olhar para o seu rosto, ao ouvir a sua voz indefinida no espaço, não sentir um arrepio na espinha. E como eu adorava essa nota inesperada nela, essa peça a mais no puzzle.
Mesmo as frases mais comuns que saíam da sua pequena boca – que deslizavam coma sua voz, pareciam-me a mim as mais belas palavras do mundo.
“Anything that comes from the soul is poetry”
Maria pendia a cabeça para o lado, à janela, murmurando uma música qualquer. Quando quisesse, viria para a cama. Suave, como se não pousasse os pés no chão, como fazia todas as noites. O seu perfume de manga beijaria os lençois e o meu nariz. Darme-ia um beijo leve na face, pedindo-me com os olhos para apagar a luz.
“…poetry.”
Um estrondo acordou-me. Mas antes que pudesse olhar, um vento frio empurrou-me e fez voar as folhas de cima da cama que rodopiaram no ar ruidosamente.
As portas da janela abertas.
O ruído dos carros na estrada.
O pequeno chinelo cor-de-rosa de Maria, caído no chão.
Na janela, algo estava escrito. Não me lembro do momento em que me levantei, como me arrastei até ao parapeito.
“Nothing lasts forever”
Nunca quis salvar o mundo. Queria só fugir da sua violência.
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