Crónicas de Pão-De-Ló


não há sentido em amontoar palavras que ninguém compreende
Setembro 26, 2008, 5:59 pm
Arquivar em: fábulas

E enquanto descia a rua – que os meus sentidos já interpretavam instintivamente – senti o coração a bater-me contra o peito. O movimento palpitante fazia já estremecer a fina t-shirt que tinha vestido (talvez já vibrasse assim no autocarro, sem que tivesse reparado). A minha respiração tornou-se pesada, difícil, como se aspirasse todo o ar a minha volta. O vazio tem de ser preenchido – foi isso que me ensinaram. Ou pelo menos, maquilhado.

Finalmente só. No fundo, penso que planeei todos os instantes da semana pensando no momento em que rodasse a chave na fechadura, e ouvisse o silêncio entre as paredes. Um silêncio perpétuo.

E chorei. Chorei como se tivesse segurado as lágrimas todo o dia, toda a semana; como se tivesse os lábios em sangue à força de os morder, para conter a humilhação. Libertei todas as outras coisas, todas as outras pessoas, todas as imagens vazias – voaram em direcção às nuvens. O vazio da casa fundiu-se com o meu, e senti-me finalmente acompanhada. Será que isto faz algum sentido? (Nenhuma maquilhagem dura para sempre). Todas as palavras me custam, a minha voz arranha-me os tímpanos! Não são mentiras, são antes sombras dos meus pensamentos. Aqui, as janelas dão para uma parede. Lembrei-me de como toda a gente olhou de lado para o pequeno quintal fechado.

Apaixonei-me sempre por pessoas vazias. Por actores exímios e personagens recicláveis. E apesar de tudo, que saudades tenho de sentir o meu vazio a comunicar com o vazio de outra pessoa. Mesmo quando as palavras já não diziam nada de especial. Como é que posso explicar alguma destas coisas, se nem sei as palavras para elas?

Mas não é por isso que choro. Não é por isso que desejo tão sofregamente esta solidão forçada. Não lamento sequer. É mais como se as lágrimas fossem da cor do meu vazio. Não é tanto como se escapassem pelos meus olhos. É mais como se me expandisse no silêncio, e pela força delas, torno-me maior.


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