Crónicas de Pão-De-Ló


docLisboa (16<26Out)

É hora para dizer: Sim! Sim! Sim!

O doclisboa 2008 – VI Festival Internacional de Cinema Documental – começa já a 16 de Outubro :)

Este festival, o único no nosso país exclusivamente dedicado ao documentário, divide-se este ano em 13 Secções (Com lista de filmes confirmados):

Competição Internacional {longas e curtas metragens – de todo o mundo, produzidas em 2007 ou 2008.}*

Investigações {competição mundial, explorando em profundidade temas da actualidade social ou política.}

Competição Nacional

Frederick Wiseman – mostra retrospectiva  e masterclass {11 filmes do cineasta debatidos e comentados filme a filme pelo realizador, presente em Lisboa.}

Riscos e ensaios {obras arriscadas, que se situam na fronteira entre o documentário e a ficção.}

Diários filmados II (Conclusão do ano passado)

Novas famílias, novas identidades {documentários centrados na transformação dos costumes familiares}

Made in China

Heart Beat {dedicada à relação da humanidade – música}

Moçambique!

Curtas Polacas

Maratonadoc {no último dia, especial filmes com mais de 3 horas)

Docs 4 kids

* Os títulos que foram colocados nesta secção já estão confirmados no festival mas ainda não foi confirmada a que secção pertencem.



o seu nome não era maria
Setembro 28, 2008, 10:31 pm
Arquivado em: Posições

“Anything that comes from the soul is poetry”

A sua voz aveludada, com uma rouquidão quase imperceptível, era o amor perfeito daquela noite. O ar do quarto estava tépido e húmido, graças ao bafo quente do ar condicionado, e a janela estava forrada com uma fina camada de humidade que nos impedia de ver a chuva lá fora. 

Eu estava deitado na cama, como sempre, a rever o artigo a entregar no dia seguinte. “A crise financeira do sector imobiliário”. Que tema fascinante – pensei com sarcasmo. Já se iam os dias em que acreditava que ia salvar o mundo. 

Quando as palavras, já tão familiares, se tornavam uma mancha desfocada, levantava os olhos e observava o rosto pálido de Maria no reflexo do espelho. Penteava os longos cabelos negros, madeixa por madeixa, com o cuidado de uma mãe que embala o seu filho. Que comparação bizarra. Que rosto bizarro, o rosto de Maria. Emoldurado por aqueles cabelos negros, em contraste com a sua pele translúcida, poderse-ia dizer que estava morta. Mesmo os movimentos do seu corpo esguio, enquanto separava as madeixas de cabelo, tinham algo de pesado e denso, contrastando com o seu aspecto frágil.

O nosso quarto – ou o quarto dela, onde havia para sempre de me sentir um intruso – estava quase vazio, e a meia luz do candeeiro do teto esforçava-se por dar um tom bucólico à cena. Mas era impossível, ao olhar para o seu rosto, ao ouvir a sua voz indefinida no espaço, não sentir um arrepio na espinha. E como eu adorava essa nota inesperada nela, essa peça a mais no puzzle.

Mesmo as frases mais comuns que saíam da sua pequena boca – que deslizavam coma sua voz, pareciam-me a mim as mais belas palavras do mundo.

“Anything that comes from the soul is poetry”

Maria pendia a cabeça para o lado, à janela, murmurando uma música qualquer. Quando quisesse, viria para a cama. Suave, como se não pousasse os pés no chão, como fazia todas as noites. O seu perfume de manga beijaria os lençois e o meu nariz. Darme-ia um beijo leve na face, pedindo-me com os olhos para apagar a luz.

“…poetry.”

Um estrondo acordou-me. Mas antes que pudesse olhar, um vento frio empurrou-me e fez voar as folhas de cima da cama que rodopiaram no ar ruidosamente.

As portas da janela abertas.

O ruído dos carros na estrada.

O pequeno chinelo cor-de-rosa de Maria, caído no chão.

Na janela, algo estava escrito. Não me lembro do momento em que me levantei, como me arrastei até ao parapeito. 

“Nothing lasts forever”

Nunca quis salvar o mundo. Queria só fugir da sua violência.



Culture Lovers
Setembro 27, 2008, 5:02 pm
Arquivado em: ufindings

chicken.



Setembro 27, 2008, 12:50 am
Arquivado em: Uncategorized

No honey, God bless everyone. Including Himself.



não há sentido em amontoar palavras que ninguém compreende
Setembro 26, 2008, 5:59 pm
Arquivado em: fábulas

E enquanto descia a rua – que os meus sentidos já interpretavam instintivamente – senti o coração a bater-me contra o peito. O movimento palpitante fazia já estremecer a fina t-shirt que tinha vestido (talvez já vibrasse assim no autocarro, sem que tivesse reparado). A minha respiração tornou-se pesada, difícil, como se aspirasse todo o ar a minha volta. O vazio tem de ser preenchido – foi isso que me ensinaram. Ou pelo menos, maquilhado.

Finalmente só. No fundo, penso que planeei todos os instantes da semana pensando no momento em que rodasse a chave na fechadura, e ouvisse o silêncio entre as paredes. Um silêncio perpétuo.

E chorei. Chorei como se tivesse segurado as lágrimas todo o dia, toda a semana; como se tivesse os lábios em sangue à força de os morder, para conter a humilhação. Libertei todas as outras coisas, todas as outras pessoas, todas as imagens vazias – voaram em direcção às nuvens. O vazio da casa fundiu-se com o meu, e senti-me finalmente acompanhada. Será que isto faz algum sentido? (Nenhuma maquilhagem dura para sempre). Todas as palavras me custam, a minha voz arranha-me os tímpanos! Não são mentiras, são antes sombras dos meus pensamentos. Aqui, as janelas dão para uma parede. Lembrei-me de como toda a gente olhou de lado para o pequeno quintal fechado.

Apaixonei-me sempre por pessoas vazias. Por actores exímios e personagens recicláveis. E apesar de tudo, que saudades tenho de sentir o meu vazio a comunicar com o vazio de outra pessoa. Mesmo quando as palavras já não diziam nada de especial. Como é que posso explicar alguma destas coisas, se nem sei as palavras para elas?

Mas não é por isso que choro. Não é por isso que desejo tão sofregamente esta solidão forçada. Não lamento sequer. É mais como se as lágrimas fossem da cor do meu vazio. Não é tanto como se escapassem pelos meus olhos. É mais como se me expandisse no silêncio, e pela força delas, torno-me maior.



PERFORMANCE | Trabalho de Graça
Setembro 25, 2008, 10:04 am
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Ela trabalha de graça. Vocês escolhem o tipo (pintura, desenho, fotografia, performance, instalação, vídeo, digital art,etc). Pagam os materiais e decidem todos os aspectos da obra. Assinam o contracto e voila, a vossa obra encomendada.

Com este projecto Beatriz Albuquerque procura aproximararte e vida, sublinhando a importância da democracia e abertura na arte, ao mesmo tempo que cria a obra ideal para vários clientes explorando este conceito.

Projecto TRABALHO DE GRAÇA

19 de Setembro de 2008, 22h-24h
20 de Setembro de 2008, 13h-19h
23 de Setembro de 2008, 13h-19h
24 de Setembro de 2008, 13h-19h
25 de Setembro de 2008, 13h-19h

GALERIA ARTE CONTEMPORÂNEA

3ª feira a Sábado-12:30h | 20:00h Rua António Maria Cardoso, 31 |

INFORMAÇÕES

915737966




9ª festa do Cinema Frances (2Out-2Nov)
Setembro 24, 2008, 4:28 pm
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E chegou novamente até nós a Festa do Cinema Francês, com presença em 4 cidades-chave: Almada, Coimbra, Porto e Faro (em dias diferentes).

Este ano, além do programa original (com 25 antestreias seleccionadas pela sua qualidade), o festival contará com duas categorias novas:

  • Cannes em Portugal: Homenagem aos realizadores Franceses presentes no festival de Cannes (10 Filmes que passam exclusivamente em Lisboa e Porto).
  • Paris- Lisboa: secção organizada pela cinemateca de Lisboa que exibirá dez filmes que têm em palco paris e Lisboa.

Secção Principal

Cannes em Portugal

Paris-Lisboa

Em Lisboa, no cinema de S.Jorge, no instituto Franco-português e na Cinemateca.

Mais informações para breve. Para o programa, aqui.



Queer Lisboa (19Set-27Set)
Setembro 24, 2008, 3:41 pm
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Já está nos ecrãs, à uns dias, o Queer Lisboa, na sua 12ª edição. Para aqueles que ainda não foram a nenhuma sessão, ainda têm os últimos três dias. Não se acanhem! Ainda há imensos filmes para ver. Tantos, tantos, que nem tenho tempo para por os links cá. Mas o site tem toda a informação necessária disponível: e é só clicar aqui.

Com o objectivo de inserir e desproblematizar a convivência entre pessoas de diversas tendências sexuais, é importante não faltar a um evento que propõe a exaltação da democracia e da descoberta de novos horizontes.

no São Jorge.



Praxes
Setembro 22, 2008, 7:30 pm
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Praxes. Todos os anos é a mesma coisa. Não sendo uma fã e apreciadora, mas observadora, acho um fenómeno bastante interessante. Temos de um lado os que se queixam da forma como são geridas. De outro os que se queixam dos caloiros rebeldes. E ainda aqueles que, citando um grupo que hoje se lamentava, “estão-se marimbando”.

Relacionando os vários episódios de hoje, pergunto-me quem são os verdadeiros marginalizados: os que rejeitam a maioria (alguns porque se sentem à partida excluídos ou pouco à vontade, outros como acção com valor em si) ou os que rejeitam as minorias (uns porque se sentem rejeitados e respondem com a mesma moeda, outros porque se sentem intimidados, outros sematenção a essa rejeição e ainda outros.. como acção de auto-valor).

 

É tão óbvio, logo ao início, qual é qual.



Rubrica Culinária
Setembro 20, 2008, 1:49 pm
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      Rubrica culinária: receita para uma vida banal

Ingredientes:
1 vida
1 emprego enfadonho
1 chefe intragável
1 dl de salário miserável
Cansaço em pó
Família a gosto
Amigos a gosto
½ litro de jantares de confraternização
Música, cinema, livros e desporto a gosto
1 playstation
Ervas aromáticas de cariz estupefaciente 

Preparação:
Corte a sua vida em rodelas finas e coloque-as numa panela, juntamente com o emprego, cortado em gomos relativamente grandes. Deite um fio de salário miserável, tape a panela e coloque a refogar em lume brando. Quando o preparado começar a fumegar – o cheiro a marasmo deverá, por esta altura, fazer-se sentir – adicione o chefe intragável, de preferência picado, e mexa com uma colher de pau.

(Nota: há quem aprecie juntar colegas de trabalho indescritivelmente surreais a este prato. Deixamos essa eventual opção ao critério do «gourmet», ressalvando, no entanto, que tal escolha poderá provocar o intensificar de um paladar já de si bastante azedo ao refogado)

Concluída a primeira fase, terá erguido os pilares essenciais desta refeição: a pseudo-maturidade que advém da responsabilidade do emprego, a angústia do salário que não estica até ao fim do mês, as prioridades completamente invertidas no ritmo de vida e a sensação de completo vazio quando confrontado com as expectativas alimentadas na fase mais juvenil. O principal está feito.

A partir daqui, a confecção do prato terá, em grande parte, mais a ver com o estado de espírito de quem o cozinha e com o âmbito em que a refeição é digerida. Partindo do pressuposto de que a mesma será consumida numa base diária – bem ao jeito ‘McDonalds Espiritual’ – , sugerimos que junte ao refogado os essenciais «pós de cansaço».

Ao fazê-lo, convém retirar a panela do lume e deixar o refogado acalmar, sempre tapado. Mexa devagar, para impedir que o cansaço se acumule no fundo, o que pode suscitar a eventual tendência suicida do cozinheiro.

Quando o cansaço em pó já estiver perfeitamente integrado com os restantes ingredientes – formando um todo bastante compacto – poucas opções lhe restam a não ser refugiar-se nos ingredientes que o ajudam a manter alguma sanidade no prato: família e amigos a gosto. Se puder juntá-los a ½ litro de jantares de confraternização, verá que consegue ocultar ligeiramente a tendência azeda do restante cozinhado.

O prato respirará de outra forma, transmitindo-lhe um paladar mais leve e, acima de tudo, de digestão muito mais fácil. Consoante o ambiente em que esteja, pode acompanhar o repasto com uma de várias sugestões: música, cinema, livros, Playstation e desporto. Obviamente que algumas destas opções são passíveis de degustar em simultâneo. Por isso, mais uma vez, e realçando o facto de este ser um prato de carácter bastante intimista, a decisão ficará ao critério de quem cozinha.

Por fim, e para que as sensações e angústias provocadas por esta refeição possam parecer (realço o PARECER) bastante mais fáceis de assimilar, sugerimos que antes de servir o cozinhado o tempere com as ervas aromáticas de cariz estupefaciente. Depois de fazê-lo, sentir-se-á com capacidade suficiente para comer várias doses de seguida, como se de simples bombons se tratassem.

Com a particularidade de abrirem o apetite, tais especiarias ainda têm o condão de elevá-lo a um patamar de alheamento praticamente «zen», motivo pelo qual tudo passa a ser consumido com um sorriso nos lábios. O sono, esse, torna-se igualmente mais confortável e descansado, permitindo uma digestão perfeita de tudo o que engoliu. O que assume carácter de particular importância, sobretudo se levar em linha de conta que no dia seguinte terá, seguramente, de levar com dose idêntica.

Bom apetite!

in esquizofrenias de bolso