Crónicas de Pão-De-Ló


Sofrer por ti é egoísta
Janeiro 25, 2008, 1:34 am
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Há por aí quem diga que sofrer pelas outras pessoas é, no fundo, imaginar-se na sua posição. Ou seja, quando sofremos assim, estamos sempre a sofrer um pouco por nós, a comparar-nos: “se eu estivesse naquela situação, nem sei o que faria…”

Pelo menos, é o que diz a minha amiga. E com alguma razão, que não lhe roubo – ou nunca nos aconteceu divagar (mentalmente) sobre o sofrimento de alguém e por isso sentir pena (e talvez alguma admiração) por essa pessoa? Agora o que eu acho, sinceramente, é que a pena não se limita a isso. Quando sinto pena, não preciso de discorrer mentalmente sobre o assunto à priori – por vezes o sentimento é espontâneo, instintivo. As razões pelas quais tenho esse instinto, não sei – mas por mais que possa pensar sobre a situação e pessoa com que sou confrontada, o facto de que senti pena instintiva não se anula. Com o pensamento sobre o sofrimento a pena atenua-se, mas não me parece que seja assim que ela surja.

A minha amiga remata que eu sou objectiva demais, que ela não é assim. É um argumento que já ouvi antes, e posso afirmar (espero que não ingenuamente) que me considero uma pessoa abstracta. Mas não posso descurar que a pena que sinto pelas vítimas, é uma sensação, primeiramente, visual. Não preciso saber porque é que uma pessoa chora para sentir pena dela, sinto imediatamente uma pressão na pálpebra. O conhecimento da situação, eventualmente, é que me faz chorar… ou não.

Apesar de tudo, se a pena for realmente um sentimento por identificação, não acho que seja um sentimento egoísta, porque no final de contas, tudo o que pensamos e vemos é uma interpretação nossa, baseada em premissas e sensibilidades individuais. Somos todos limitados por nós mesmos, mas ao mesmo tempo… somos libertos pelas nossas capacidades.

O que eu queria mesmo dizer era que gostos não se discutem, e sensibilidades também não.
A não ser que sejam inexistentes.


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