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Foi assim: ele corria o risco de ser a minha próxima vítima de identificação. Sim, aquela que eu ia referir em 80% das conversas, e que ia idolatrar como a pessoa-mais-quase-perfeita à face do (meu) planeta. Converámos durante horas. Na minha imaginação, eu deglutia aquele cérebro aos bocadinhos, sorvia todas as palavras, bebia todas as sílabas.
Mas depois algo que não adivinham. Ele caíu. Do meu altar quero dizer. Caíu a pique.
E apesar de ter vários pontos a mencionar, com os quais 99% de vocês iriam concordar, nem sei apontar bem porquê.
Simplesmente, à minha frente, aquele smi-deus intelectual, a paixão platónica de parte do meu cérebro, dissolveu-se à minha frente num amontoado de pregas de carne. É verdade: ele é só um homem. E prontos, admito, não é perfeito.
“Com pedra e com ferro se tornarão visíveis as coisas que antes não se viam”
Da Vinci
Mas era tão bom quando me tinha esquecido disso! O aparte dele, o que me faz querer conhecê-lo melhor, é o mesmo que lhe diz bok.
Bok! – Diz ele – Bok! para ti também.
Há por aí quem diga que sofrer pelas outras pessoas é, no fundo, imaginar-se na sua posição. Ou seja, quando sofremos assim, estamos sempre a sofrer um pouco por nós, a comparar-nos: “se eu estivesse naquela situação, nem sei o que faria…”
Pelo menos, é o que diz a minha amiga. E com alguma razão, que não lhe roubo – ou nunca nos aconteceu divagar (mentalmente) sobre o sofrimento de alguém e por isso sentir pena (e talvez alguma admiração) por essa pessoa? Agora o que eu acho, sinceramente, é que a pena não se limita a isso. Quando sinto pena, não preciso de discorrer mentalmente sobre o assunto à priori – por vezes o sentimento é espontâneo, instintivo. As razões pelas quais tenho esse instinto, não sei – mas por mais que possa pensar sobre a situação e pessoa com que sou confrontada, o facto de que senti pena instintiva não se anula. Com o pensamento sobre o sofrimento a pena atenua-se, mas não me parece que seja assim que ela surja.
A minha amiga remata que eu sou objectiva demais, que ela não é assim. É um argumento que já ouvi antes, e posso afirmar (espero que não ingenuamente) que me considero uma pessoa abstracta. Mas não posso descurar que a pena que sinto pelas vítimas, é uma sensação, primeiramente, visual. Não preciso saber porque é que uma pessoa chora para sentir pena dela, sinto imediatamente uma pressão na pálpebra. O conhecimento da situação, eventualmente, é que me faz chorar… ou não.
Apesar de tudo, se a pena for realmente um sentimento por identificação, não acho que seja um sentimento egoísta, porque no final de contas, tudo o que pensamos e vemos é uma interpretação nossa, baseada em premissas e sensibilidades individuais. Somos todos limitados por nós mesmos, mas ao mesmo tempo… somos libertos pelas nossas capacidades.
O que eu queria mesmo dizer era que gostos não se discutem, e sensibilidades também não.
A não ser que sejam inexistentes.
